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Psicodiagnóstico – O que é, quando e por que procurar esse serviço

Você percebe que algo está errado com seu filho – percebe que ele está sofrendo… e não sabe por que? Há algum problema na escola? Será que está sofrendo bullying? Sempre foi bem na escola e de repente suas notas pioraram muito? Ele anda triste, cabisbaixo, às vezes chora e não consegue te contar o que está acontecendo? Ou aconteceu alguma coisa, como a morte de alguém da família ou mesmo de um amiguinho, talvez a separação dos pais o esteja afetando, ou ainda outra mudança brusca ocorreu (nasceu um irmãozinho, uma irmãzinha, ou foram morar num lugar novo e distante), acha que ele não está bem e você não sabe como ajudá-lo? Como lidar com esses comportamentos agressivos que perturbam todos ao redor, inclusive ele mesmo, mas ninguém consegue controlar?

São alguns exemplos de situações que podem indicar a necessidade de se fazer uma consulta a um psicólogo. Muitas vezes, começamos levando nosso filho ao médico, sem saber o que está acontecendo com ele – e, em muitos casos, o próprio doutor nos diz que “é psicológico” – levando-nos a crer que “vai passar”, não é preciso fazer nada. Há ocasiões que o próprio médico encaminha para um psicólogo, pois sabe que não pode dar conta de tudo. Sem dúvida, os problemas emocionais estão ligados ao corpo, aos aspectos biológicos, e a intervenção do médico é em geral bem vinda. Mas, todos sabemos, nem sempre é suficiente.

Outras vezes, deixamos por conta da escola, dos professores, daqueles que encarregamos de cuidar da criança, afinal, são pagos para isso! Estudaram e devem saber melhor o que fazer! Crenças que nem sempre se confirmam, pois vemos a escola, e os professores, perdidos diante daqueles que mais precisariam da sua intervenção. Sabem lidar com o esperado, portanto com aquele que não dá problema. Mas o que fazer diante do sofrimento de um menino, ou menina, que os faz reviver seus próprios sofrimentos, muitas vezes mal elaborados, o que os faz sentirem-se identificados com aquele que vive tal angústia, mas sem treinamento suficiente para lidar com isso?

O psicólogo ou a psicóloga – pois, em sua maioria, são mulheres – vai ouvir e tentar, junto com a família e a criança ou mesmo o adolescente, entender o que se passa. Pois, para ajudar, para fazer algo que de fato ajude, é necessário entender. Esse processo de busca da compreensão do que está acontecendo com a criança, e que muitas vezes não acontece somente com ela, mas com todos que a cercam, pois afeta a todos, é chamado tradicionalmente de psicodiagnóstico ou avaliação psicológica. E aí, todos devem participar, pois estão envolvidos. E é indispensável avaliar bem, para fazer um encaminhamento adequado – para tomar as medidas que ajudem de forma mais efetiva.

O que é psicodiagnóstico?

Cunha (2000, p. 23) considera que o “psicodiagnóstico é uma avaliação psicológica feita com propósitos clínicos (…) que visa identificar as forças e fraquezas no funcionamento psicológico, com o foco na existência ou não de psicopatologia”. Ela o define como um processo científico de tempo limitado que “utiliza técnicas e testes para entender problemas à luz de pressupostos teóricos, identificar e avaliar aspectos específicos (…), comunicando os resultados com base nos quais são propostas soluções” (p. 26).

Como funciona o psicodiagnóstico?         

Numa abordagem tradicional, o profissional inicia com as perguntas aos pais sobre a história não apenas da criança, mas da família, e prossegue com a aplicação de diversos testes, uma bateria completa, complexa e bastante específica; irá também brincar com a criança visando conhecê-la para, ao final, fazer alguma ou várias propostas de solução, inclusive, a continuidade do atendimento psicológico, a conhecida psicoterapia. Diz muitas vezes coisas que faz pouco ou nenhum sentido para os pais (ou a quem veio procurá-lo), menos ainda àquele diretamente interessado, a criança. Mas, sendo possível o atendimento psicológico, tudo se encaminha, ainda que nem sempre na rapidez que desejamos, para uma melhora. Tratava-se de uma forma de trabalho baseada no modelo médico, buscando consolidar a identidade profissional do psicólogo (sobre essa discussão, vide Ancona-Lopez, 1984; Trinca, 1984; Ocampo, Arzeno e Piccolo, 2001; Cunha, 2000, entre outros autores).

Já numa abordagem mais atual (nem tanto, pois mais de três décadas este trabalho vem sendo consolidado), os pais começam contando o que está acontecendo, mas continuam participando todo o tempo, ainda que o psicólogo ou a psicóloga use testes, desenhos, jogos e brincadeiras para conhecer seu filho. Os contatos podem ser intercalados ou mesmo juntos. Compreender quem está sofrendo e por que razão. E decidir, juntos, o que é possível ser feito e como fazê-lo. Muitas vezes não é fácil, pois podem ser necessárias mudanças que o pai e/ou a mãe precisam fazer, que lhes custam dor e sofrimento também, mas que beneficiarão o filho. São decisões que podem ser tomadas em conjunto, com a ajuda e participação também do profissional, bem como da criança e, assim, com todos, as mudanças podem ser mais fáceis.

Tecnicamente essa abordagem é chamada de Psicodiagnóstico Interventivo e pretende romper com a separação entre o diagnóstico/avaliação e o tratamento/psicoterapia, entendendo o primeiro como um processo que é, em si mesmo, terapêutico. Tem sido discutido na área da Psicologia por autores de diferentes abordagens teóricas (Ancona-Lopez, 1998; Donatelli, 2005; Barbieri, 2007), sempre enfatizando os aspectos terapêuticos do processo.

Quando devemos procurar um psicólogo para nosso filho?

Evidentemente, tem que haver disposição para ajudar o filho, em benefício dele – e do grupo todo. Isso nem sempre ocorre, nem sempre é possível desistir dos próprios projetos de vida em prol de outro, ainda que nosso filho seja nosso maior projeto. É porque tudo o que vivemos não pode ser descartado, porque estamos apegados a nossos desejos não só conscientes mas, principalmente, inconscientes, que a razão nem sempre dá conta, não basta dizer para mudar algo, para que o consigamos fazer. Tudo o que gostaríamos para nós e não fomos ou não tivemos, desejamos para nosso filho que, por sua vez, será ele próprio, levando consigo nossos projetos para ele – ainda que passe a vida inteira os contestando e tentando criar outros projetos, acredita, inéditos e diferentes dos nossos, mas boa parte deles em continuidade aos nossos”.

É por isso, porque somos governados pelo nosso inconsciente, como já dizia o conhecido Freud, que precisamos da intervenção da Psicologia. Sobre a grande contribuição da Psicanálise para a compreensão dos fenômenos psicológicos existe vasta literatura, que não cabe descrever aqui, qualquer um pode acessá-la. O psicólogo ou a psicóloga vem, assim, auxiliar a criança e sua família a compreender melhor e, então, lidar melhor com esses aspectos que não estão claros e que estão trazendo sofrimento.

Não é um processo simples. Se fosse, não precisaria de ajuda profissional. É preciso considerar os mais diversos aspectos que podem ter a ver com aquilo que está perturbando, não apenas os inconscientes, da própria criança e da família, mas fatores externos, sociais, das relações e do contexto em que estão inseridas – entendendo a pessoa como um ser biopsicossocial. Mais do que tudo, é preciso que o grupo e o filho, que é porta voz das dificuldades e seus pais, encontrem sentido no trabalho que está sendo realizado. E que aquele conhecimento técnico do especialista seja assimilado e vivenciado pela família toda, única forma possível para que todos se envolvam com as possibilidades de enfrentamento do problema.

Já publicamos reflexões sobre a importância da participação dos pais e da família (Sirota & Rosa, 2003; Emidio & Rosa, 2012) e diversos autores também ressaltam a necessidade de ouvir e de acolher os pais, que sofrem (Ocampo, Arzeno & Piccolo, 2001; Souza, 1998). Até porque, nem sempre, a questão está na criança apenas. Ela pode ser aquele que, por ser mais fraco e vulnerável, aponta para dificuldades que estão nos demais ou no grupo todo. Comprometer a família, então, com o atendimento, contar com sua participação efetiva, só é possível quando a compreensão do que acontece faz sentido para ela, e da forma como pode lidar com esse significado (Sirota & Rosa, 2003).

É preciso ressaltar que não se pretende, de forma alguma, culpar os pais. Não pretendemos dizer que são as frustrações e desejos não realizados deles, o que gera os problemas enfrentados pelos filhos. Somos os melhores pais que temos condições de ser, com nossas qualidades e defeitos. É preciso confiar na nossa capacidade, inclusive como filhos, de ir além daquilo que os pais projetam em nós. Ou seríamos mera repetição, não haveria evolução. Em busca desse crescimento consultamos o psicólogo, levamos nosso filho que está com problemas, em prol de facilitar e favorecer seu bem estar, tanto no presente quanto no futuro. Embora vivamos em tempos de privilégio da individualização e de “cada um por si”, existe uma tendência a atribuir aos pais a responsabilidade por tudo o que acontece com os filhos e como estão se comportam e agem – eximindo assim o filho de suas próprias responsabilidades.

O que está sendo dito aqui, é claro, não se aplica somente às crianças e adolescentes. Adultos também vivem as mais diversas dificuldades, tanto nas relações afetivas como no trabalho, na administração de suas finanças, em estar num mundo em que a competição os coloca em constante luta não apenas para sobreviver, mas para serem os melhores, superarem a si mesmos e aos demais. Em todas as áreas. Todo trabalho psicológico, seja qual for, ainda que não se intitule de avaliação, não prescinde de algum tipo de exame, de julgamento e consideração a respeito do que está acontecendo com a pessoa e quais são suas capacidades para tal enfrentamento, do mesmo modo que é feito com a criança. Pois, para propor soluções, é preciso conhecer também a possibilidade e a capacidade de levar adiante, efetivamente, o que se propõe.

Nossas palavras, nesse pequeno espaço, não pretendem dar conta de todos os aspectos de um assunto tão complexo, como o sofrimento humano. Buscamos apenas esclarecer, como um alerta e, ao mesmo tempo, tranquilizar, para que possamos ir em busca de ajuda da Psicologia para lidar com os problemas do nosso cotidiano, que nos afligem e a nossos filhos, e que percebemos que nem sempre é fácil ou possível resolver, ou suportar, sozinhos.

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